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CONSTELAÇÃO – por LIA SAMPAIO

Objetos inanimados

sábado, fevereiro 27, 2010 @ 05:02 AM
postado por: Editoria

O narrador do romance O Homem no escuro (Editora Companhia das Letras; tradução de Rubem Figueiredo) de Paul Auster é um jornalista e crítico literário que após sofrer um acidente de carro vai se recuperar na casa de sua filha Miriam. Lá convive com a neta de 23 anos, Katya, e os dois criam o hábito de assistir aos clássicos do cinema e em seguida falar sobre os filmes. Ela é a autora desta “ teoria sobre cinema ” que reproduzimos aqui.

(…) “Toda vez que terminamos de ver um filme, conversamos um pouco sobre ele, antes de Katya pôr outro filme para passar. Em geral, eu quero discutir a história e a qualidade dos atores, mas os comentários de Katya tendem a se concentrar em aspectos técnicos do filme: a câmera, a montagem, a iluminação, o som, e coisas assim. Hoje à noite, porém, depois de termos visto três filmes estrangeiros seguidos – A grande ilusão, Ladrões de bicicleta e O mundo de Apu –, Katya fez alguns comentários argutos e incisivos, esboçando uma teoria da criação cinematográfica que me impressionou pela originalidade e perspicácia.

Objetos inanimados, disse ela.

O que têm eles? Perguntei.

Objetos inanimados como formas de expressar emoções humanas. Essa é a linguagem do cinema. Só bons diretores entendem como fazer isso, mas Renoir, De Sica e Ray são três dos melhores diretores, não são?

Sem dúvida.

Pense bem nas cenas de abertura de Ladrões de bicicletas. O herói consegue um emprego, mas não vai poder trabalhar a menos que tire sua bicicleta do penhor. Vai para casa desgostoso da vida. E lá está sua esposa, na rua, carregando dois pesados baldes de água. Toda a pobreza deles, toda a luta da mulher e da sua família, estão contidas naqueles baldes. O marido está tão envolvido em seus próprios problemas que nem se dá ao trabalho de ajudar a mulher, só quando já estão perto da porta do prédio. E, mesmo então, pega só um dos baldes, deixa que ela carregue o outro. Tudo o que precisamos saber sobre o casamento deles nos é transmitido nesses poucos segundos. Em seguida, sobem a escada para o seu apartamento, e a esposa vem com a idéia de penhorar as roupas de cama para poderem tirar a bicicleta do prego. Lembre-se da violência com que ela chuta o balde na cozinha, lembre-se da violência com que ela abre a gaveta da cômodo. Objetos inanimados, emoções humanas. Depois estamos na loja de penhores, que na verdade não é uma loja, mas um local enorme, uma espécie de armazém para objetos abandonados. A esposa vende os lençóis, e depois disso vemos um dos trabalhadores levar a pequena trouxa para as prateleiras onde ficam guardados os objetos penhorados. No início, as prateleiras não parecem muito altas, mas aí a câmera recua e, à medida que o homem começa a subir, vemos que as prateleiras continuam sem parar, até o teto, e todas as prateleiras e todos os cantinhos estão entupidos de trouxas idênticas àquela que o homem está guardando agora, e de uma hora para outra parece que todas as famílias de Roma venderam suas roupas de cama, que a cidade inteira está na mesma condição miserável que o herói e sua esposa. Numa só tomada, vovê. Numa só tomada temos um retrato de toda uma sociedade que vive à beira da calamidade.

Nada mau, Katya. As engrenagens estão girando…

Essa idéia me veio esta noite. Mas acho que estou na pista de alguma coisa, porque vi exemplos disso nos três filmes. Lembra dos pratos de A grande ilusão?

Dos pratos?

Perto do fim. Gabin diz para a mulher alemã que a ama, que vai voltar para ela e para a filha dela quando a guerra terminar, mas as tropas agora estão se aproximando, e ele e Dalio precisam tentar atravessar a fronteira para a Suíça antes que seja tarde demais. Os quatro fazem a última refeição juntos, e então chega a hora de se despedirem. Tudo é muito comovente, é claro. Gabin e sua mulher na porta, a possibilidade de nunca mais voltarem a se encontrar, as lágrimas da mulher quando o homem desaparece na noite. Renoir corta então para Gabin e Dalio correndo na mata, e eu aposto quanto você quiser que qualquer outro diretor do mundo teria continuado com eles até o final do filme. Mas não Renoir. Ele tem o gênio – e, quando digo gênio, quero dizer a compreensão, a profundidade de coração, a compaixão – para voltar para a mulher e a filha pequena, a jovem viúva que já perdeu o marido na loucura da guerra, e o que ela tem que fazer? Ela tem de voltar para casa e encarar a mesa da sala de jantar e os pratos sujos da refeição que eles acabaram de fazer. Os homens se foram agora, e, como se foram, aqueles pratos se transformaram no ritual da sua ausência, no sofrimento solitário das mulheres quando os homens partem para a guerra, um por um, sem dizer uma palavra, ela recolhe os pratos, e limpa a mesa. Quanto dura a cena? Dez segundos? Quinze segundos? Quase nada, mas tira o fôlego da gente, não é? Dá um soco que deixa a gente sem ar.

Você é uma garota corajosa, disse eu, pensando de repente em Titus.

Pare com isso, vovô. Não quero mais falar sobre ele. Outra vez, quem sabe, mas não agora. Certo?

Certo. Vamos ficar com os filmes. Ainda temos um para falar. O filme indiano. Acho que foi dele que eu mais gostei.

É porque você é um escritor, disse Katya, abrindo um sorriso irônico e breve.

Pode ser. Mas isso não quer dizer que ele não seja bom.

Eu não teria escolhido esse filme se não fosse bom. Nada de lixo. Essa é a regra, lembra? Todo tipo de filme, do doidão até o sublime, mas nada de lixo.

De acordo. Mas onde está o objeto inanimado em Apu?

Pense bem.

Não quero pensar. A teoria é sua, portanto me diga você.

As cortinas e o grampo de cabelo. Uma transição de uma vida para outra, o ponto crucial da história. Apu foi para o campo para assistir ao casamento da amiga do seu primo. Um casamento arranjado á maneira tradicional, e, quando o noivo aparece, se vê que é um retardado, um idiota completo. O casamento é cancelado, e os pais da amiga do primo começam a entrar em pânico, com receio de que a filha seja amldiçoada para o resto da vida se não se casar naquela tarde. Apu está dormindo em algum lugar debaixo de umas árvores, sem preocupação alguma, feliz por passar alguns dias fora da cidade. A família da garota vem até ele. Explicam que ele é o único homem solteiro disponível, que é o único que pode resolver o problema para eles. Apu fica apavorado. Acha que são doidos, um bando de caipiras supersticiosos, e se recusa a ajudar. Mas aí reflete um pouco mais no assunto e resolve fazer o que estão pedindo. Como uma boa ação, um gesto de altruísmo, mas não tem a menor intenção de levar a garota consigo para Calcutá. Depois da cerimônia de casamento, quando os dois afinal ficam sozinhos pela primeira vez, Apu se dá conta de que aquela jovem dócil é mais obstinada do que ele imaginava. Sou pobre, diz ele, quero ser escritor, não tenho nada para oferecer a você. Eu sei, diz ela, mas isso não faz diferença, ela está decidida a ficar com ele. Exasperado, aturdido, mas também comovido com a resolução dela, apu cede com relutância. Corta para a cidade. Uma carroça pára em frente a uma casa caindo aos pedaços, onde Apu mora, e ele e a noiva desembarcam. Todos os vizinhos vêm olhar espantados para a linda garota e enquanto Apu a conduz pela escada para o seu sótão pequeno e sórdido. Um instante depois, alguém o chama e ele sai. A câmera continua na garota, sozinha naquele quarto desconhecido, naquela cidade desconhecida, casada com um homem que ela mal conhece. Por fim, ela caminha até a janela, onde tem um trapo de estopa pendurado em vez de uma cortina de verdade. Há um buraco no trapo, e ela espia pelo buraco que dá para um quintal, onde um bebê de fralda anda cambaleante em meio á poeira e ao entulho. O ângulo da câmera se inverte, e vemos o olho no buraco. Lágrimas caem desse olho, e quem é que pode culpar a garota por se sentir arrasada, assustada, perdida? Apu volta para o quarto e pergunta o que há de errado. Nada, responde ela, balançando a cabeça, nada mesmo. Então a imagem escurece, e a grande pergunta é: o que vai acontecer? O que está reservado para esse casal tão fora do comum, que acabou se casando por mero acidente? Com uns poucos toques hábeis e decisivos, tudo nos é revelado em menos de um minuto. Objeto número um: a janela. A imagem se ilumina, é de manhã cedo, e a primeira coisa que vemos é a janela por onde a garota estava olhando na cena anterior. Mas o trapo de estopa sumiu, substituído por um par de cortinas limpas de tecido xadrez. A câmera recua um pouco, e lá está o objeto inanimado número dois: flores num jarro sobre o parapeito. São sinais animadores, mas ainda não podemos ter certeza do que significam. Uma sensação de vida em família, de vida doméstica, um toque feminino, mas é isso que se espera que as esposas façam, e só porque a esposa de Apu cumpriu tão bem o seu dever não prova que ela gosta dele. A câmera continua a recuar, e vemos os dois dormindo na cama. O despertador toca, e a esposa levanta da cama enquanto Apu resmunga e enfia a cabeça no travesseiro. Objeto número três: o sári dela. Depois que sai da cama e vai começar a andar, ela percebe de repente que não consegue se mover – porque suas roupas estão amarradas nas roupas de Apu. Muito estranho. Quem poderia ter feito uma coisa dessas – e por quê? A expressão no rosto da garota é ao mesmo tempo de irritação e de diversão, e logo entendemos que Apu é o responsável. Ela volta para a cama, lhe dá umas palmadinhas leves na bunda, e aí desfaz o nó. O que esse momento me diz? Que eles estão fazendo sexo bom, que um sentimento de bom humor se formou entre eles, que os dois estão de fato casados. Mas e quanto ao amor? Eles parecem contentes, mas será que os seus sentimentos mútuos são fortes? É aí que aparece o objeto número quatro: o grampo de cabelo. A esposa sai de cena para preparar o café-da-manhã, e a câmera fecha em Apu. Ele enfim consegue abrir os olhos, boceja, se espreguiça e rola na cama, vê algo na fenda entre os dois travesseiros. Enfia a mão ali e puxa um dos grampos de cabelo da esposa. Esse é o momento culminante. Ela segura o grampo de cabelo e o examina, e, quando a gente observa os olhos de Apu, a ternura e a adoração naqueles olhos, a gente fica sabendo, fora de qualquer dúvida, que ele está loucamente apaixonado por ela, que ela é a mulher da sua vida. E Ray faz isso acontecer sem usar uma única palavra de diálogo.

O mesmo caso dos pratos, disse eu. O mesmo caso da trouxa de lençóis. Sem palavras.

(……………………………………………………………………………………….)

Pensando nos filmes novamente, me dou conta de que tenho outro exemplo para acrescentar à lista de Katya. Tenho de me lembrar de dizer a ela amanhã bem cedo – na sala de jantar, durante o café-da-manhã -, pois sei que vai deixá-la contente, e, se eu conseguir arrancar um sorriso daquele rosto tristonho, vou considerar isso uma façanha notável.

O relógio no final em Era uma vez em Tóquio.

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