Receba noticias do Centro de Estudos Claudio Ulpiano no seu e-mail

digite seu e-mail:

CONSTELAÇÃO – por LIA SAMPAIO

O objeto da filosofia (texto inacabado)

segunda-feira, março 22, 2010 @ 05:03 PM
postado por: Editoria

A busca da verdade é o constituir de uma imagem do pensamento, com seus valores, que submete tudo o que nos cerca à sua forma. Mas quando digo que esta imagem é a que conduz à verdade, imediatamente quaisquer outras imagens são imagens, de pensamento e de vida, que me afastam da verdade, que me afastam do verdadeiro caminho. Vemos a afinidade da questão da verdade com a religião. A imagem que nos conduz à verdade é uma imagem dogmática, ela desqualifica as outras imagens.

Se afastamos do falso a negatividade, isto é, se deixamos de o contrapor à verdade, imediatamente as imagens, de pensamento e de vida, são a constituição de valores que filtram o mundo; o qual nos pressiona através das imagens que percebemos e que exigem uma resposta motora. A busca da verdade é a imagem dogmática do pensamento, excludente de outras imagens: estas, ainda que possíveis, têm um grau de iminência inferior. Dando ao falso positividade, a única avaliação possível é quanto à potência de determinado pensamento. O falso, ao invés de se contrapor ao verdadeiro, ganha positividade, ou melhor, traz para a positividade a multiplicidade. Não há mais uma imagem excludente, não há mais como avaliar uma imagem do pensamento ou de vida pelo seu grau de iminência, pela sua proximidade com a verdade. A única avaliação possível é a potência imanente àquela imagem, potência de pensamento, potência da vida.

A questão da filosofia não é quanto aos conteúdos, não é a reprodução dos fatos que preenchem uma imagem. A questão da filosofia é a forma, o não se ater ao conteúdo, mas inventar novas derivas para uma imagem do pensamento, ou inventar uma nova imagem. É como a vida na evolução de suas tendências: forçada em seu início a imitar a matéria, inventa a tendência do instinto, e na complexidade do sistema nervoso humano investe numa nova tendência: a inteligência, no lugar do instinto. A questão da filosofia não é enumerar inventários, mas elaborar descrições.

Remeter os conceitos de uma filosofia a uma forma que, ela mesma, não é um conceito, mas algo que os atravessa, que os fazem ressoar um no outro, que os fazem compor-se com um rigor como se fosse um cálculo matemático. O formal na filosofia é a elaboração do crivo do pensamento. Ao mesmo tempo, na vida, o crivo submete cada imagem que encontramos no mundo à sua organização; formando o meio que nossa vida habita. Em Bergson o mundo caótico e acentrado da matéria luminosa, e a consciência de direito que, do interior do caos luminoso, traça uma linha, uma tendência que é a gênese do vivo. É em torno destas tendências – diferenciais – que o pensamento se volta. Os diferenciais são linhas do tempo, linhas abstratas que atravessam os elementos que as compõem; como notas numa música, como conceitos numa filosofia, fazendo com que se interpenetrem, ressoem uns nos outros, assim surgindo o seu sentido. A prática do pensamento é o mergulho no tempo, nos diferenciais que surgem no tempo; preocupar-se com a reprodução de conteúdos é a pratica da inteligência que constantemente ameaça a filosofia, fazendo da reprodução a linha da verdade.

A metafísica de Bergson é tirar a filosofia das práticas da reprodução; e através da intuição fazer da filosofia uma prática inventiva, constituidora de novos meios, de novas imagens do pensamento. Fazer da filosofia uma prática inventiva que não se preocupa em reproduzir os valores estabelecidos, que não se preocupa em reproduzir o mundo de nossos hábitos, as relações culturais que nos acostumamos a obedecer.

A Descrição

O esquema sensório motor nos traz o mundo dos nossos hábitos, congelado por nossos hábitos, onde só percebemos o que nos interessa. E o que nos interessa é determinado não só por nosso gosto pessoal, mas pelos hábitos, costumes e regras nos quais se inscreve a nossa descrição de mundo. A descrição é a elaboração de um inventário que fazemos ao longo de nossas vidas, através do qual organizamos o mundo que nos cerca. Uma cultura funciona como um conjunto de hábitos, de costumes, de regras que coordenam a vida dos que nela se inserem; surge o mundo comum que é o reflexo do homem que o habita: o homem comum.

A arte trabalha com a percepção, ou melhor, nas fronteiras da percepção, rompendo com a postura comum da percepção, ela não se contenta em reproduzir o estabelecido, o modo do homem comum, o seu trabalho é ao modo de um laboratório: o que se tenta produzir é o novo. Estamos diante de uma descrição do mundo que não mais se explica como um conjunto de hábitos, de costumes, de regras; e para que possamos apreendê-la temos a necessidade de, mesmo que por um período, abandonar a descrição do mundo estabelecida. Do contrário os nossos confrontos com as artes serão sempre uma redução à nossa descrição, será sempre uma questão determinada por nosso gosto pessoal e ligada aos fatos exteriores, sem jamais entrar na invenção, própria ao mundo da arte.

E o mundo sempre se reproduziria, na monotonia das mesmas linhas. Mas porque a arte existe, sempre surgem novas linhas, o povo e o mundo se renovam, e surge uma outra via que não a do homem comum. É a linha de fuga do pensamento, onde o modo de vida é ao mesmo tempo um mergulho no desconhecido e um novo modo de se confrontar com este, sem o escudo do utilitário; apenas com a potência inventiva do pensamento. Que a potência do pensamento seja inventar novas descrições de mundo, novos inventários, não mais bem distribuídos entre os homens, que na natureza do pensamento a beleza tenha sempre como acompanhante a dificuldade. Ou então que não nos preocupemos com o pensamento de todo e nos apaziguemos na tranqüilidade que o reconhecimento nos oferece, que oferece a todos os homens. O reconhecimento fundamenta a comunidade dos homens, a própria humanidade é constituída graças a sua comodidade.

Voltando às descrições: estamos diante de algo que organiza as relações que se dão no mundo. O movimento se subordina em sua forma a uma descrição. Nós que sempre tivemos o tempo como uma quarta dimensão, como a medida do movimento, nos surpreendemos ao vê-lo tornar-se múltiplo e trazer sob si o movimento, por ele determinado. As descrições são linhas do tempo, é o tempo liberto. Mas para que isto apareça a determinação do tempo como linha concreta e rígida tem de ser rompida, fendida por um esvaziamento da descrição que nos determina. Como? Esburacando nosso inventário de homens comuns, até que o reconhecimento não seja mais a única via possível.

O Ser do Pensamento

Já em Platão a tendência do homem não é o pensamento, mas o reconhecimento. E quanto ao reconhecimento, Bergson distinguirá dois tipos: o reconhecimento automático e sua horizontalidade; o reconhecimento atento, seu envolvimento com a memória, seu mergulho no tempo. Só compreendemos o reconhecimento quando o associamos ao esquema sensório-motor. O reconhecimento automático se dá quando, num ser vivo, ao perceber determinado elemento uma máquina motora entra em funcionamento; como com o predador e sua presa. O reconhecimento atento indica a insuficiência de nossos hábitos para lidar com dado elemento, será preciso o auxilio da memória para que sejamos capazes de prolongar em movimento a percepção que nos pressiona. No reconhecimento atento o tempo ainda aparece como prolongamento do sensório no motor, o tempo ainda se submete ao espaço.

O vivo constitui-se como imagem privilegiada, como centro em torno do qual as demais imagens, que compõem o universo, variam. É a questão da curvatura da matéria que gera o próximo e o distante, prolongando o passado imediato em futuro imediato: estamos na horizontalidade do hábito. No reconhecimento atento a memória tem um uso, uma finalidade de servir ao sensório-motor; é somente quando o reconhecimento atento falha que o tempo ganha uma dimensão outra que a do espaço. A questão passa a ser em que nível do tempo está escondida esta lembrança, ou melhor, o tempo é composto por níveis, onde as imagens-lembrança se localizam (1), o próprio presente é o nível do tempo mais contraído, sendo tanto mais profundo quanto mais dilatado, até a dilatação máxima que envolveria todo o tempo, a qual recebe o nome de passado puro. O tempo não são as imagens-lembrança, mas estas estão no tempo. A memória não é o poder de acumular antigos presentes, antes é o poder de mergulhar no tempo, onde as lembranças se localizam1, como os corpos se localizam no espaço e nossa percepção nos possibilita apreendê-los. A paramnésia, fruto de um enfraquecimento orgânico, situando-se na falha do sensório-motor, é a apreensão simultânea de um mesmo acontecimento pela percepção e pela memória. O tempo é uma multiplicidade de dimensões, como pela percepção podemos apreender as dimensões espaciais, pelo pensamento podemos mergulhar no tempo. Mas se no modo como a vida utilitária se processa, na qual o tempo só é entendido a partir de noções espaciais; o homem comum não pensa? Ao modo de Platão, Bergson nos diz que o homem permanece de bom grado, por toda sua vida, no reconhecimento (2).  O que costumamos chamar de pensamento não é mais do que as associações utilitárias da inteligência (3). Se o pensamento elabora relações entre as idéias, é sem se prender ao funcionalismo do sensório-motor, quanto menos nossa memória se ater ao passado enquanto conjunto de imagens-lembrança, tanto mais o passado se constitui como lembrança-pura, passado-puro, tempo em seu estado puro, sem que se misture com o espaço, sem que seja entendido através de noções espaciais.

Quando formamos uma imagem-lembrança traduzimos o tempo em termos espaciais. É atualizar aquilo cuja realidade é de direito, o virtual. Bergson diferencia o passado do conjunto de imagens que a memória atualiza. O passado diferencia-se do presente. Enquanto o presente existe de fato, isto é, os fatos que entram em contato com o vivo estão no presente do tempo, sendo apreendidos pela percepção. O passado insiste de direito, independente do presente, ele não tem extensão, não se constitui como imagem, a não ser quando atualizado através de uma conjugação que a memória faz com a imaginação, tendo em vista auxiliar o sensório-motor no mundo utilitário. O funcionamento da memória pressupõe que ela se instale no passado puro ao buscar uma lembrança, só a colocando em foco através da conjugação que faz com a imaginação. “MM, 110″.

(este é um texto inacabado; achamos por bem publicá-lo tal qual foi arquivado por Claudio no computador)

(1) A matéria como sinônimo de imagem é uma matéria que traz a luz dentro de si, ela é iridescente. Ao contrario da matéria na fenomenologia que é tratada como trevas eternas, a luz vindo da consciência e iluminando, dando sentido, ao mundo.

(2) República,

(3) Matéria e Memória

Imprima este post Imprima este post Envie este post Envie este post

Deixe um comentário

Powered by Web Design Company Plugins